Norma Bruno

De Humanas, Demasiado de Humanas

O Que Motiva a Caminhada

O poeta espanhol Antonio Machado bem que avisou: “Caminante no hay camino”. O Quintana mais que depressa emendou em bom português: “São os passos que fazem o Caminho”.  Eu, que já andava desconfiada, aceito respeitosamente o que dizem. Mas minha questão não é essa, nunca foi. O que me intriga é: o que, afinal, nos leva a caminhar?

A mim, já que só posso falar por mim, o que me inspira é uma inquietação profunda e a antiga busca por compreensão do que nos acontece, pobres criaturas capazes tanto dos mais elevados gestos quanto das piores vilanias. Sou movida também pela busca do entendimento do Mundo, esse Mundo admirável e louco em que fomos jogados, até melhor compreensão, à revelia. Para mim, a imagem que melhor representa essa busca é o Olho.

O olhar atencioso, isto é, consciente, acorda sensibilidades, engendra interpretações, desvela desejos, interesses e aversões, influencia escolhas. O que o Olho vê constrói um jeito de sentir, de pensar, de ser e estar no mundo. Do mesmo modo, o que ele não dá conta de ver e inclusive o que ele desvê, como diria o Manuelito. Eis a argamassa da qual somos feitos. Eis o que somos.

Todo esse converseiro pra dizer que a partir de agora este blog amplia os temas de interesse e, parodiando Nietzsche, se reconhece como um blog De Humanas, Demasiado de Humanas. A mudança vai além da caiação da fachada e vem para afinar-se com as mudanças de rumo que aos poucos, e sem que eu me desse conta, foram acontecendo. Como na vida. Quando a gente vê a coisa já aconteceu.

Dos textos iniciais – artigos, ensaios e crônicas – inspirados no Espírito da Cidade e na Cultura Ilhoa aos poucos o blog vem descambando para temas mais universais, pois universais somos. Essa temática continua. As crônicas continuam, ontem, hoje e sempre. É o que mais gosto de fazer. A Ilha de Santa Catarina continua sendo o meu mais querido cenário visto que é e sempre será a minha aldeia.

Sem abrir mão do que fazia, mas permitindo-me ir além, passo a falar também de outros temas, outros lugares, outras pessoas, dos sonhos, das angústias, das grandezas e das pequenezas humanas que, afinal, são as mesmas em todos os lugares.

A partir do meu reencontro com a Poesia, em 2015, além de falar do que me sensibilizava em meus bordejos (o Pé que caminha) e do que “oiço” por aí, passei a falar do que me inspira para além do caminhar: impressões que me ficam das leituras, dos encontros, dos desencontros, das reflexões, das minhas inquietações, dos desejos também.

Entonces: de agora em diante me permitirei escrever sobre o que “vejo”, naturalmente mediado pelo que não vejo, pelo que não dou conta de ver e também pelo que escolho, ainda que inconscientemente ou poeticamente, desver, aceitando, portanto, que não percebo, que não sei, que não compreendo. Por isso a metáfora do olho cego da capa do blog.

Resumindo: o Pé que caminha do antigo banner dá lugar ao Olho que determina o meu desejo de caminhar. Pois o pé apenas me leva. O que me conduz mesmo é o olhar. Já a procura… Essa continua a mesma.

 

  • O Olho – desenho realista feito à mão livre com caneta BIC pelo artista visual Saulo Cam, a partir de uma foto da autora. Formado em Fotografia pela UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba, Saulo é autodidata em desenho e tatuador profissional. Paraense, mora na Ilha de Santa Catarina desde 2013.

 

 

 

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  1. Cris de Sá

    Delícia! Li e reli algumas vezes. Adorei!

    • Norma Bruno

      Bem a tua cara gostar disso! Não esperava mesmo outra coisa de ti. Não pelo texto, mas pela abordagem, algo que vejo reforçado cada vez que falamos sobre o Viver e os viventes. És daquelas pessoas que acrescenta. Grata pela visita e, sobretudo, pela amizade!

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