E lá estávamos nós no Faia de novo. No ano anterior levei também a maior parte da minha coleção de João, faltou um, agora éramos apenas eu e a Filha. Reserva feita, mesa boa, adentramos ao Salão ao fim da cantoria de uma jovem fadista de quem, infelizmente, não sei o nome. Nos intervalos entre os fadistas serve-se o jantar.

Sucedem-se os magistrais Anita Guerreiro e António Rocha, fadistas residentes, dois dos grandes nomes do Fado ao qual, como manda a tradição, se devota o mais profundo respeito. Anunciado o fadista, ninguém entra, ninguém sai, cessam todos os serviços. É inútil fazer meneios ao garçom. Ele não sairá do seu posto até o fim da cantoria. Alguém diz, solenemente:

– Silêncio! Vai-se cantar o Fado!

Eu já começo a chorar. A Filha ri. De mim. Seguem-se os clássicos. Na mesa ao lado, duas turistas de meia-idade (na verdade, mais pra inteira do que pra meia), cabelos louríssimos e quase transparentes de tão brancas, insistem em filmar o show apesar da proibição. O garçom se obriga a contrariar o protocolo e vem chamar-lhes atenção. Eu já votando pela expulsão sumária!

Por fim entra Lenita Gentil com sua voz potente colocando o povo todo a cantar e bater palmas com seu Fado mais alegre, mais bailante. Eu na bateção de palmas e à espera de um dos meus  favoritos e que virou brincadeira entre nós, eu e os filhos, para identificar onde estamos no exato momento quando perguntados. Pois não é que a Galega terminou o show, bisou e não cantou a tal música?

Contrariada, na saída me deparei com ela no saguão. Segurei suas mãos, olhei nos seus olhos e, desabusada, reclamei:

Vim do Brasil pra te ouvir cantar “Lisboa, em Lisboa!” e não cantaste!

– “Lisboa Cidade Sol”!

Essa!

Volta!

Volto!

Ela que mandou. Não tenho culpa!

Pelo Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Honra aos ancestrais!