Norma Bruno

De Humanas, Demasiado de Humanas

Autor: Norma Bruno (Página 1 de 53)

No Claustro

Não encontro a Noviça, diz o Jardineiro.

Está na Solitária, em penitência. Muito avoada.

E a Madre?

Enclausurada também. Se descomportou e esqueceu de suas obrigações. 

E até quando vai isso?

Até mudar a Lua. Ordens superiores.

 

* Palácio de Queluz. Lisboa. Foto da autora.

Lua Cheia

 

Que Lua é essa? Perguntou a Noviça à janela.

Do tipo que não dá sossego às mulheres. Respondeu a Madre dançando uma rumba.

 

 

* imagem capturada na Internet, sem identificação de autoria

A Casa Imaginária

A casa é antiga. No quintal tem jabuticabeira, pé-de-caqui e varal com roupa limpa. Também tem riso de criança. Na cozinha, uma mulher prepara o alimento dos filhos. No quartinho dos fundos vive uma mulher mais velha que o Tempo. No seu Baú dos Guardados, sempre limpo e bem passado, o melhor vestido espera o fatídico dia.

No centro da casa tem uma alcova com cama boa  e lençóis bordados em flores de alfazema. Sobre a cama, colocado com esmero,  jaz um ramo de amor-perfeito recém-colhido. Há também um sótão para abrigar os fantasmas sem os quais não se faz uma casa antiga de verdade.

Ao redor sopra um vento fiel e íntimo, como inquilino. Sem cerimônia, ele entra pela casa misturando cheiros: mofo, ervas e alfazema. Depois sai deixando restos de nuvens e asas de borboletas sobre o assoalho.

É de barro, pedra e Poesia essa casa que habito e onde teço e tramo com palavras. Entre as quatro paredes, e além delas, nada é só o que parece. O Amor é a viga-mestra que me sustenta nos dias alegres e nos tristes. Ao longe as montanhas são azuis. Como o mar que se avista das janelas.

 

Foto: Roney Prazeres. Aquele que faz Poesia com palavas e imagens.

Em Lisboa! Em Lisboa!

E lá estávamos nós no Faia de novo. No ano anterior levei também a maior parte da minha coleção de João, faltou um, agora éramos apenas eu e a Filha. Reserva feita, mesa boa, adentramos ao Salão ao fim da cantoria de uma jovem fadista de quem, infelizmente, não sei o nome. Nos intervalos entre os fadistas serve-se o jantar.

Sucedem-se os magistrais Anita Guerreiro e António Rocha, fadistas residentes, dois dos grandes nomes do Fado ao qual, como manda a tradição, se devota o mais profundo respeito. Anunciado o fadista, ninguém entra, ninguém sai, cessam todos os serviços. É inútil fazer meneios ao garçom. Ele não sairá do seu posto até o fim da cantoria. Alguém diz, solenemente:

– Silêncio! Vai-se cantar o Fado!

Eu já começo a chorar. A Filha ri. De mim. Seguem-se os clássicos. Na mesa ao lado, duas turistas de meia-idade (na verdade, mais pra inteira do que pra meia), cabelos louríssimos e quase transparentes de tão brancas, insistem em filmar o show apesar da proibição. O garçom se obriga a contrariar o protocolo e vem chamar-lhes atenção. Eu já votando pela expulsão sumária!

Por fim entra Lenita Gentil com sua voz potente colocando o povo todo a cantar e bater palmas com seu Fado mais alegre, mais bailante. Eu na bateção de palmas e à espera de um dos meus  favoritos e que virou brincadeira entre nós, eu e os filhos, para identificar onde estamos no exato momento quando perguntados. Pois não é que a Galega terminou o show, bisou e não cantou a tal música?

Contrariada, na saída me deparei com ela no saguão. Segurei suas mãos, olhei nos seus olhos e, desabusada, reclamei:

Vim do Brasil pra te ouvir cantar “Lisboa, em Lisboa!” e não cantaste!

– “Lisboa Cidade Sol”!

Essa!

Volta!

Volto!

Ela que mandou. Não tenho culpa!

Pelo Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Honra aos ancestrais!

Que Frio É Esse, O Que É??

A moça no interfone diz que a senhora Leninha pede autorização para subir.  Esqueci de avisar que tem vizinho fazendo mudança, o que significa elevador preso em outro andar. Minutos depois chega ela.  Encarangada, abro a porta já reclamando.

–  Ô, rapariga! Que frio é esse, o que é?? 

-Ô, estimada! Tá tão frio que o elevador tá até de capinha!

Com uma manicure dessa a gente fica com as unhas feitas e a pele boa. De tanto rir.

Espelho

Mais do que em meu próprio rosto, é no rosto do outro que eu  reconheço o meu envelhecimento. Como estão velhos os meus contemporâneos!

O Que Motiva a Caminhada

O poeta espanhol Antonio Machado bem que avisou: “Caminante no hay camino”. O Quintana mais que depressa emendou em bom português: “São os passos que fazem o Caminho”.  Eu, que já andava desconfiada, aceito respeitosamente o que dizem. Mas minha questão não é essa, nunca foi. O que me intriga é: o que, afinal, nos leva a caminhar?

A mim, já que só posso falar por mim, o que me inspira é uma inquietação profunda e a antiga busca por compreensão do que nos acontece, pobres criaturas capazes tanto dos mais elevados gestos quanto das piores vilanias. Sou movida também pela busca do entendimento do Mundo, esse Mundo admirável e louco em que fomos jogados, até melhor compreensão, à revelia. Para mim, a imagem que melhor representa essa busca é o Olho.

O olhar atencioso, isto é, consciente, acorda sensibilidades, engendra interpretações, desvela desejos, interesses e aversões, influencia escolhas. O que o Olho vê constrói um jeito de sentir, de pensar, de ser e estar no mundo. Do mesmo modo, o que ele não dá conta de ver e inclusive o que ele desvê, como diria o Manuelito. Eis a argamassa da qual somos feitos. Eis o que somos.

Todo esse converseiro pra dizer que a partir de agora este blog amplia os temas de interesse e, parodiando Nietzsche, se reconhece como um blog De Humanas, Demasiado de Humanas. A mudança vai além da caiação da fachada e vem para afinar-se com as mudanças de rumo que aos poucos, e sem que eu me desse conta, foram acontecendo. Como na vida. Quando a gente vê a coisa já aconteceu.

Dos textos iniciais – artigos, ensaios e crônicas – inspirados no Espírito da Cidade e na Cultura Ilhoa aos poucos o blog vem descambando para temas mais universais, pois universais somos. Essa temática continua. As crônicas continuam, ontem, hoje e sempre. É o que mais gosto de fazer. A Ilha de Santa Catarina continua sendo o meu mais querido cenário visto que é e sempre será a minha aldeia.

Sem abrir mão do que fazia, mas permitindo-me ir além, passo a falar também de outros temas, outros lugares, outras pessoas, dos sonhos, das angústias, das grandezas e das pequenezas humanas que, afinal, são as mesmas em todos os lugares.

A partir do meu reencontro com a Poesia, em 2015, além de falar do que me sensibilizava em meus bordejos (o Pé que caminha) e do que “oiço” por aí, passei a falar do que me inspira para além do caminhar: impressões que me ficam das leituras, dos encontros, dos desencontros, das reflexões, das minhas inquietações, dos desejos também.

Entonces: de agora em diante me permitirei escrever sobre o que “vejo”, naturalmente mediado pelo que não vejo, pelo que não dou conta de ver e também pelo que escolho, ainda que inconscientemente ou poeticamente, desver, aceitando, portanto, que não percebo, que não sei, que não compreendo. Por isso a metáfora do olho cego do banner do blog.

Resumindo: o Pé que caminha do antigo banner dá lugar ao Olho que determina o meu desejo de caminhar. Pois o pé apenas me leva. O que me conduz mesmo é o olhar. Já a procura… Essa continua a mesma.

 

  • O Olho – desenho realista feito à mão livre com caneta BIC pelo artista visual Saulo Cam, a partir de uma foto da autora. Formado em Fotografia pela UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba, Saulo é autodidata em desenho e tatuador profissional. Paraense, mora na Ilha de Santa Catarina desde 2013.

 

 

 

Sim e Não

Minhas dúvidas são feitas de absolutas certezas. Às vezes 100% sim. Às vezes 100% não.

A Jornada Tortuosa

Quando se está num caminho virtuoso, tudo que acontece, o de bom e o de ruim, o que dá certo e o que dá errado, a pessoa que chega, a pessoa que vai, tudo contribui para nos levar ao lugar onde deveríamos estar desde o começo. O que a jornada tortuosa faz é nos reconduzir ao Caminho e preparar-nos para esse momento, para o encontro com o que sempre esteve lá à nossa espera. A isso chamamos Destino.

Tarô O Mundo

 

*imagem capturada na Internet. Desconheço a autoria.

 

Um Imenso Salão de Baile

A solidão já foi um banco vazio à sombra de uma árvore sem pássaros.  Hoje é um imenso salão de baile onde eu danço com os meus prezados fantasmas enquanto a orquestra toca minha música favorita.

O Baile

*imagem: cena do filme O Baile, de Ettore Scola,  de 1983 (capturada na Internet)

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