Nasci em uma casa onde não havia livros, mas sobrava o gosto pela leitura. Lembro da minha mãe debruçada sobre uma folha de jornal velho enquanto o peixe que nele viera embrulhado aguardava ser escamado sobre a pia da cozinha.

Havia revistas. Muitas revistas. Esperávamos com ansiedade o dia do pagamento do pai, pois isso implicava na alegria de irmos todos do Continente até à Ilha, onde havia a única banca da Cidade, para comprarmos revistas. Uma revista para cada um da família.

Mais que tudo, em nossa casa havia “estórias”, muitas “estórias”. Narrativas de família compartilhadas pela minha mãe, estórias universais contadas magistralmente pela minha Bisavó, ela própria uma personagem de livro, e muita contação de causo sobre a Florianópolis de antigamente, e também sobre a família, narradas por meu pai.

Havia, sobretudo, uma espécie de convocação a imaginar, a inventar e valorizar o surreal, o fantástico e o nonsense. Nossa brincadeira mais divertida em família era fazer trocadilhos e chegamos a atingir um tal nível de perícia que muitas vezes dialogamos usando trocadilhos como se faz no “repente” onde um jogador se apropria da fala do outro para construir a sua. Quer melhor exercício de criatividade?

No café da manhã tínhamos por costume compartilhar os sonhos da noite anterior e trocar impressões sobre o seu significado. Também eram levadas a sério a intuição, a premonição e a conexão entre o que sabemos e o que não sabemos, entre a realidade sensorial e o mundo do invisível, inclusive o mundo dos mortos. Isso moldou minha maneira de ver, de sentir e de pensar e, portanto, também meu jeito de ser e estar no mundo. A maneira de descrevê-lo também.

Tornei-me uma contadora de estórias. Meu ofício é ouvir e contar. Hoje trabalho com Memória: Memória da Cidade, das instituições e das pessoas. Sou cronista por puro gosto e deleite. Vez por outra escrevo uns contos, mas não sou muito boa de ficção, não. Talento pra inventar estórias eu tenho mais é na minha vida. É cada uma que eu invento! Ultimamente enveredei pelos descaminhos da Poesia. Tô gostando!