Norma Bruno

De Humanas, Demasiado de Humanas

Categoria: A Poesia Nossa de Cada Dia

No Claustro

Não encontro a Noviça, diz o Jardineiro.

Está na Solitária, em penitência. Muito avoada.

E a Madre?

Enclausurada também. Se descomportou e esqueceu de suas obrigações. 

E até quando vai isso?

Até mudar a Lua. Ordens superiores.

 

* Palácio de Queluz. Lisboa. Foto da autora.

A Casa Imaginária

A casa é antiga. No quintal tem jabuticabeira, pé-de-caqui e varal com roupa limpa. Também tem riso de criança. Na cozinha, uma mulher prepara o alimento dos filhos. No quartinho dos fundos vive uma mulher mais velha que o Tempo. No seu Baú dos Guardados, sempre limpo e bem passado, o melhor vestido espera o fatídico dia.

No centro da casa tem uma alcova com cama boa  e lençóis bordados em flores de alfazema. Sobre a cama, colocado com esmero,  jaz um ramo de amor-perfeito recém-colhido. Há também um sótão para abrigar os fantasmas sem os quais não se faz uma casa antiga de verdade.

Ao redor sopra um vento fiel e íntimo, como inquilino. Sem cerimônia, ele entra pela casa misturando cheiros: mofo, ervas e alfazema. Depois sai deixando restos de nuvens e asas de borboletas sobre o assoalho.

É de barro, pedra e Poesia essa casa que habito e onde teço e tramo com palavras. Entre as quatro paredes, e além delas, nada é só o que parece. O Amor é a viga-mestra que me sustenta nos dias alegres e nos tristes. Ao longe as montanhas são azuis. Como o mar que se avista das janelas.

 

Foto: Roney Prazeres. Aquele que faz Poesia com palavas e imagens.

Spruvs

Foto Vento Clarice Villacé uma aflição
vontade de colocar
coisas em movimento…
mas, não há o que se possa fazer…
quem controla
este caso
é o vento…

.

Clarice Villac
19/20.11.2017

Gentileza Urbana

Levantei as sete, o que é tarde para os meus padrões. Enquanto passava o café fui até à sacada espiar a cara do dia como de costume. O Mundo estava em silêncio, algo impensável numa quinta-feira qualquer, mas não nessa. Essa quinta é de ressaca, segundo dia de um feriadão que se estenderá por ainda mais três. Fecho os olhos. Gosto desse silêncio. Desse Sol ameno, dessa aragem fresca.

De longe chega uma música suave. Me encanta que seja o de uma flauta e não o do batidão de um carro passando, o que é de praxe. Um vizinho aplicado estudando logo cedo, de certo. Na vizinhança alguém toca Saxofone e, de quando em quando, me faz a gentileza de estudar ao entardecer. Ou à noite. Eu fico extasiada, pois acho que o Sax combina com a noite. Piano também. O som fica mais intenso. Fico à espreita.

Da servidão ao lado surge uma jovem tocando sua flauta transversa. Magra, loira, cabelos com dreadlocks amarrados num coque, mochila às costas. Não conheço a música. Só sei que é linda. Espero que dobre a esquina e fique de frente para minha varanda. Bato palmas. Ela não ouve. Ainda assim continuo a aplaudir. Um BRAVOOO!, ecoa em meu peito e só não grito pra não ter problema na próxima reunião do Condomínio.

Entre um acorde e outro ela ouve as palmas e procura ao redor. Me vê. Continuo aplaudindo com os braços levantados e faço um sinal de aprovação. Ela sorri e corresponde enquanto some encoberta pela parede do prédio. Grata e encantada sigo a ouvir o som da tua flauta mágica, minha bela e generosa Hamelin!

Desdigo o que disse. Não acordei tarde. Acordei na hora exata.

Por um tempo de delicadeza!

Flauta Transversa

*Imagem capturada na Internet. Desconheço a autoria

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén