Norma Bruno

De Humanas, Demasiado de Humanas

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Lua Cheia

 

Que Lua é essa? Perguntou a Noviça à janela.

Do tipo que não dá sossego às mulheres. Respondeu a Madre dançando uma rumba.

 

 

* imagem capturada na Internet, sem identificação de autoria

Espelho

Mais do que em meu próprio rosto, é no rosto do outro que eu  reconheço o meu envelhecimento. Como estão velhos os meus contemporâneos!

Uma Porta no Porto

Andar pelas ruas e, não mais que de repente, como disse o Mestre, deparar-se com isso:

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Uma porta. Apenas uma porta, mas não uma porta qualquer! Uma porta onde se vê inscrito um poema em letras recortadas sobre uma imensa  placa de bronze. A maioria das pessoas passa ao largo, sem perceber. Ou sem dar importância. Eu paro. Leio algumas frases. Os olhos enchem de água (que lugar seria aquele?). Um homem abre a porta atrapalhando a foto. Espero. Percebo que é um estabelecimento comercial.   Em vez de um letreiro com o nome da firma, um poema! Que tipo de empreendedor escolhe um poema para adornar a entrada do seu estabelecimento comercial? Gente doida que acredita no poder da Poesia. Me identifico. Sigo em êxtase para o Café Majestic onde vou almoçar com a Filha. Por um breve momento volto a acreditar que o Mundo tem jeito.

O poema  é do Almeida Garret (in Folhas Caídas)

Seus Olhos

Seus olhos – que eu sei pintar

O que os meus olhos cegou –

Não tinham luz de brilhar,

Era chama de queimar:

E o fogo que a ateou

Vivaz, eterno, divino, 

Como facho do Destino.

 

Divino eterno! – e suave

Ao mesmo tempo: mas grave

E de tão fatal poder,

Que, um só momento que a vi,

Queimar toda a alma senti…

Nem ficou mais de meu ser,

Senão a cinza em que ardi.

Porto, 14 de outubro de 2017

 

*Almeida Garret, poeta portuense, nasceu em 04/02/1799 e morreu em 09/12/1854.

Corri ao Google: o estabelecimento comercial é um hotel instalado no prédio de um antigo teatro desativado, o Teatro Blanquet, de 1859. A temática foi mantida na decoração conferindo um charme especial ao lugar. A “recepção é a bilheteria, o restaurante e o bar são as áreas de palco e audição”, segundo o site do próprio Hotel que fica próximo à belíssima Estação de São Bento, no Porto. Tomo uma decisão: guardar dinheiro pra passar ao menos uma noite nesse lugar na próxima viagem.

Janelas de Lisboa

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Acordo alvoroçada.  São 07h45 e um casal discute em algum ponto do casario. Abro a janela e dou com um grupo de mochileiras muito louras a olhar maravilhadas ao derredor. Uma delas me aponta com a cabeça. Talvez pela minha cara de sonada, percebo que me confundem com uma lisboeta. Faço pose.

Um casal de jovens passa cantarolando um clássico do Rock em alemão, cada qual com uma cerveja na mão. Um cachorro puxa o dono morro acima e alivia-se diante da minha janela. O cachorro.

Um sósia do João Bosco, só que mais feio e sem charme, passa também e alivia sua inquietação mexendo freneticamente no celular.

Um homem de cabelo ralo e jaqueta do Che desce a ladeira com passos trôpegos e olhar embotado. Jovens asiáticas muito arrumadinhas e falando baixinho  tiram fotos com seus aparelhos de última geração. Um alemão filma tudo enquanto o Elétrico, que em outros horários sempre vai socado de gente, desce a colina com apenas quatro senhorinhas. Essas, sim, autênticas. O casal silencia. Devem ter se entendido.

Lisboa, 13 de outubro de  2017

Chiado, Casa da Bica . Foto minha

 

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