Norma Bruno

De Humanas, Demasiado de Humanas

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“Não me Venhas de Borzeguins ao Leito!”

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O Bacalhau vem muito bem servido. Delicioso! Ainda assim como pouco. Afinal, estamos há “dezassete” dias passando bem e temos mais quatro dias de orgia gastronômica pela frente. Peço a conta. O garçom, mal-humorado, como a maioria dos portugueses, me chama na chincha! – O que há de errado com o Bacalhau?? – Nada, é que veio muito, respondo sem esconder a surpresa. – Veio a quantidade certa! Argumento que fiz o “pequeno almoço” muito tarde isentando o pobre bacalhau de toda e qualquer responsabilidade. Ele se dá por satisfeito. Simpatizo com pessoas que têm orgulho de ser quem são!

Alfama, Lisboa, 17 de outubro de 2017

*Algo que aprendi sobre os garçons portugueses: se não vier azeite à mesa, não peça. Das vezes em que isso aconteceu a resposta foi a mesma: – O prato já foi preparado com azeite! Posso estar enganada, mas…

Uma Porta no Porto

Andar pelas ruas e, não mais que de repente, como disse o Mestre, deparar-se com isso:

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Uma porta. Apenas uma porta, mas não uma porta qualquer! Uma porta onde se vê inscrito um poema em letras recortadas sobre uma imensa  placa de bronze. A maioria das pessoas passa ao largo, sem perceber. Ou sem dar importância. Eu paro. Leio algumas frases. Os olhos enchem de água (que lugar seria aquele?). Um homem abre a porta atrapalhando a foto. Espero. Percebo que é um estabelecimento comercial.   Em vez de um letreiro com o nome da firma, um poema! Que tipo de empreendedor escolhe um poema para adornar a entrada do seu estabelecimento comercial? Gente doida que acredita no poder da Poesia. Me identifico. Sigo em êxtase para o Café Majestic onde vou almoçar com a Filha. Por um breve momento volto a acreditar que o Mundo tem jeito.

O poema  é do Almeida Garret (in Folhas Caídas)

Seus Olhos

Seus olhos – que eu sei pintar

O que os meus olhos cegou –

Não tinham luz de brilhar,

Era chama de queimar:

E o fogo que a ateou

Vivaz, eterno, divino, 

Como facho do Destino.

 

Divino eterno! – e suave

Ao mesmo tempo: mas grave

E de tão fatal poder,

Que, um só momento que a vi,

Queimar toda a alma senti…

Nem ficou mais de meu ser,

Senão a cinza em que ardi.

Porto, 14 de outubro de 2017

 

*Almeida Garret, poeta portuense, nasceu em 04/02/1799 e morreu em 09/12/1854.

Corri ao Google: o estabelecimento comercial é um hotel instalado no prédio de um antigo teatro desativado, o Teatro Blanquet, de 1859. A temática foi mantida na decoração conferindo um charme especial ao lugar. A “recepção é a bilheteria, o restaurante e o bar são as áreas de palco e audição”, segundo o site do próprio Hotel que fica próximo à belíssima Estação de São Bento, no Porto. Tomo uma decisão: guardar dinheiro pra passar ao menos uma noite nesse lugar na próxima viagem.

Janelas de Lisboa

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Acordo alvoroçada.  São 07h45 e um casal discute em algum ponto do casario. Abro a janela e dou com um grupo de mochileiras muito louras a olhar maravilhadas ao derredor. Uma delas me aponta com a cabeça. Talvez pela minha cara de sonada, percebo que me confundem com uma lisboeta. Faço pose.

Um casal de jovens passa cantarolando um clássico do Rock em alemão, cada qual com uma cerveja na mão. Um cachorro puxa o dono morro acima e alivia-se diante da minha janela. O cachorro.

Um sósia do João Bosco, só que mais feio e sem charme, passa também e alivia sua inquietação mexendo freneticamente no celular.

Um homem de cabelo ralo e jaqueta do Che desce a ladeira com passos trôpegos e olhar embotado. Jovens asiáticas muito arrumadinhas e falando baixinho  tiram fotos com seus aparelhos de última geração. Um alemão filma tudo enquanto o Elétrico, que em outros horários sempre vai socado de gente, desce a colina com apenas quatro senhorinhas. Essas, sim, autênticas. O casal silencia. Devem ter se entendido.

Lisboa, 13 de outubro de  2017

Chiado, Casa da Bica . Foto minha

 

Solidão

Não importa quanta gente exista ao derredor.  Ao nascer. Ao morrer.  A vida é só solidão.

No Dia dos Mortos, aos Costumes!

Anjo de Cemitério

Véspera de Finados, fui aos costumes.  Nem bem desci do táxi uma moça se aproximou oferecendo serviço de limpeza de túmulos. Disse-lhe que gosto eu mesma de limpar e enfeitar as lápides do Pai e da Mãe, a única de forma de cuidado que afinal me resta.

Substitui as flores, lavei as lápides com água perfumada, tudo bem bonitinho como sei que eles gostavam, gostam, agradeci pelo privilégio de tê-los como pais, recolhi o lixo e me afastei procurando um banco à sombra para descansar enquanto esperava o táxi para voltar à casa. No único banco disponível, uma moça sentada rodeada de sacolas plásticas. Pedi licença e sentei observando as sacolas entreabertas – panos, esponja, escova – e uma garrafa de café.

Hoje o dia tá fraco!, ela disse. Perguntei se também limpava túmulos.  Respondeu que sim, mas só nessa época. Que trabalhava numa firma de limpeza, disse o nome, não guardei, que muitas pessoas foram mandadas embora, ela também, que a firma não acertou as contas, então ela “botou no advogado”, que enquanto não arranja outro emprego faz faxina. Quando aparece, pois até isso tá ruim hoje em dia!

Perguntou onde ficava o “meu túmulo”. Rindo internamente, apontei a direção. Disse-lhe que eu mesma gosto de limpar e cuidar dos meus. Olhando ao largo, comentou que os cemitérios ficam bonitos nessa época. Concordei, mas disse que sempre me dói, especialmente no Dia de Finados, ver o completo abandono de alguns jazigos, as floreiras sem uma mísera flor, algumas  vazias até de terra e as lápides que, de tão encardidas, nem deixam ver o  nome e as datas de nascimento e de desencarne da pessoa. (Na verdade sinto uma profunda pena do pobre que ali está, de mim, que o meu dia também há de chegar, da Humanidade inteira, pois sei que estamos todos inexoravelmente fadados ao esquecimento).

O momentâneo silêncio, acompanhado dessa agradável brisa de Primavera que areja nossos dias, foi quebrado. – Preciso dar um jeito de levar dinheiro hoje pro meu filho! Perguntei se era aniversário do menino.  Disse que sim. Percebendo onde ela queria chegar, retornei ao silêncio.

Ela então enveredou  para outro nível de argumentação. Que precisava levar leite porque o menino não toma café sem. Que foi mal-acostumado pela avó.  O silêncio se externava, mas uma falação grassava dentro de mim. Por um lado eu não queria dar esmola para uma moça tão jovem e tão cheia de vitalidade. Por outro, lá estava ela, jovem e cheia de vitalidade, certamente de sonhos também, predisposta a limpar túmulos alheios numa linda tarde ensolarada com tanta coisa mais agradável para fazer.

Talvez a sua história seja verdadeira. Talvez ela esteja mesmo desempregada. Talvez o menino faça mesmo oito anos na próxima semana.  Talvez a avó tenha mesmo estragado a criança ensinando-a a gostar de café com leite. Sei como são os avós. A verdade é que ela saiu para trabalhar – aquela garrafa de café sugere o tipo de alimentação que teve durante todo o dia – a clientela é que não apareceu. Tentando aparentar uma casual curiosidade, perguntei quanto elas cobravam pelo trabalho.   – Quanto a pessoa quiser pagar. 

Disse que lhe daria R$10,00 para ela lavar as lápides dos dois túmulos mais abandonados daquele Campo Santo. – É fácil. Aquele e aquele!,  ela apontou. Apertamo-nos as mãos como quem fecha um negócio. Ela levantou já munida de balde e escova e se pôs agachada a esfregar a lápide mais próxima. Uma colega se aproximou e quis saber se a lápide era minha. Ela fez que sim.

Encerrado o trabalho, convocou: – Vem ver como ficou “branquinho”! Ficou mesmo. D. Valda deve ter gostado da gentileza.  Lamentei não haver sobrado nenhuma flor dos meus pais para deixar a floreira bonitinha. Em geral compro uma florzinha a mais para esses casos, mas hoje errei na conta. Ela garantiu que arranjaria uma flor. Achei melhor não perguntar como. Meu táxi chegou.

Se ela cumpriu nosso acordo e lavou a segunda lápide eu não posso responder. Espero que sim. Por ela. Pelo seu filho. Pelo dono do túmulo não visitado. Por todos nós  que andamos tão carecidos de esperança na Humanidade.

 

 

O Cheiro da Morte

Vi muita gente morrer. Meu pai, minha mãe, inclusive. A Morte tem cheiro. Não estou falando de corpos em decomposição. Estou falando da Morte. A Morte. Quando chega, a Morte exala o seu peculiar perfume. É cheiro de bicho. Acreditem-me!

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*(já que a Fátima Barreto tocou no assunto)

**Imagem: A Morta de Victor Meirelles

O Dia do Fim do Mundo

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Ele: – Alô! Te acordei?

Ela: – Não. Não estou conseguindo dormir…

Ele: – Diz que o Mundo vai acabar amanhã… Hoje…

Ela: – É. Diz que sim.

Ele: – Queria te dizer uma coisa…

Ela: – E se o Mundo não acabar?

Ele: – Não sei…

 

 

* Imagem capturada na Internet. Desconheço a autoria

Realidade

Ao menos uma vez por dia o Mundo me dói profundamente.

Horizonte – Um Ponto Final no Mar

A visão que tenho do ponto final do mar
Na distância que não posso medir
É a noção que tenho do horizonteMesmo não sabendo o que lá existe
Fixo o meu olhar em um ponto distante
Na esperança de ver o que há de vir

Meu horizonte é todo feito de mar
De velas ao longe
De barcos e portos que não conheço

Meu horizonte é repleto de lonjuras
De viagens que se demoram
De desejos de chegada

Meu horizonte é ponto de saudade na distância
É o encontro de todos os oceanos
É porto de chegada de todos os navegantes

Meu horizonte é feito do desejo
De navegar na direção de um lugar
Guardado no outro lado do mar

Roney Prazeres

Ilha de Santa Catarina
Setembro2017

Foto Morro das Pedras Roney Prazeres

Foto: Roney Prazeres. Local: Morro das Pedras. Sul da Ilha de Santa Catarina

Banzo

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De súbito, um improvável cheiro de maresia invade a caixa de concreto que me acondiciona. Dada a banzos, minha alma pede: – MAR! MAR!

*inspirada no belo poema de Roney Prazeres que postarei a seguir

 

 *o moço bonito é meu. Eu que fiz. Dado a banzos também!

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