Norma Bruno

De Humanas, Demasiado de Humanas

Tag: Ilha de Santa Catarina (Página 2 de 15)

Entreouvido na Sala de Cirurgia

Centro cirúrgico

E lá estava eu anestesiada dos seios para baixo, um braço amarrado para cada lado, numa prancha, imóvel e indefesa como um crucificado.

Passado o momento constrangedor e atemorizante da peridural, vi as pessoas afastarem-se. O silêncio reinou por alguns segundos, intermináveis segundos, suficientes para eu ser assaltada por um pensamento angustiante e recorrente: – E se eu precisar sair daqui? Como é que eu faço se eu precisar sair correndo daqui? E se alguém gritar: – Fogo!? – E se um maluco entrar atirando? Uma cara simpática aproximou-se: – Está tudo bem? Eu, blasé: – Tudo bem!

O burburinho das pessoas e  o som metálico dos instrumentos me salvaram da sensação de desamparo. Não pude deixar de ouvi-los, pois falavam alto. A conversa girava em torno dos novos modelos de smartphones.

Já visse o modelo novo? Puta coisa linda!

– O S7? Pois tu sabes que resolvi dar de presente pra minha mulher no aniversário de casamento, né. Levei ela pra escolher. O cara colocou no balcão o S4, o S6 e o S7. Ela escolheu o S4 porque achou mais lindo. Saí no lucro.

(Pessoa pouco versada em tecnologia e completamente desinteressada dessas novidades mercadológicas, eu ali, entendendo nada, mas ligadíssima no papo).

Lucro tive eu, rapaz! Comprei um pela metade do preço.

Onde, cara? Vô lá depois que sair daqui!

Comprei de um cara que eu conheço.

Trouxe dos Estados Unidos?

Não. É usado, mas tá novo. Praticamente sem uso.

Como assim?

– O cara é mudo. 

Ai, ai. Cronista não tem sossego nem dentro de um Centro Cirúrgico.

 

*imagem capturada na internet.

Minha Personal Beauty Mané

O nome dela é Leninha e não, não tem nada a ver com  aquela uma da novela (descobri agora, agorinha, que havia uma homônima dela igualmente dedica à atividade: Leninha,  Personal Beauty, numa novelinha da Globo).

Conheci a minha Leninha há pouco mais de um ano através de uma conhecida e – olha a sorte da pessoa! – não é que ela mora do ladinho da minha casa? Como diz o Mané: – Vai sê rabuda assim lá nu zinfernu!

A pessoa é tão simpática e boa no que faz que virei cliente tipo “de cardeneta”, como se diz na Ilha. Quando fiz a operação no joelho ela se prontificou a me atender “em domicílio”: – Vô na tua casa, boba!  (Esclarecimento: aqui, chamar de boba é elogio). Garrei gosto na mandriagem e agora ela vem à minha casa, toda semana. Não é um doce? Pois o que a mulher tem de doce, tem de impagável. Um “prato cheio” para um cronista.

Dia desses ela veio renovar o meu ruivo. Na hora da lavação do cabelo – a mulher é do tipo que esfrega bem, tem mão pesada -,  é de praxe: lá pelas tantas eu seguro a sua mão e peço que ela diminua a força. Pois dessa vez, nem deu tempo de falar. No que segurei a mão dela, a mulher me solta um grito: – Ai, meu Deus! A moleira tá fechada, né??? Quase morri de tanto rir.

Ela acabou de sair daqui. Veio fazer-me  as unhas. No que abro a porta ela me aparece toda bonita, de “escovinha”. Eu disse: – Que linda!  (Ela é linda mesmo!) Toda escovada!

Ela foi entrando e, toda rebolida, respondeu: – Fui no Pet!!

Tô rindo até agora.

Da série com blusa linda.

 

Para o Salim Miguel

Demorei porque buscava a palavra certa para homenagear Salim Miguel. Não a encontrei em meu próprio repertório, então fui buscá-la entre os seus iguais. Acho que o texto abaixo está à sua altura e traduz bem o que ele foi: além de um sonhador e um mestre na arte de contar estórias, Salim Miguel foi um exímio “escutador de vozes”. O nome da coisa é gratidão.

Corte e Recorte

” Assim que o viu assomar, Rosi perguntou-lhe:

– Explique como é que se faz?

– Faz o quê?

– Como é que uma pessoa consegue ler? Eu queria tanto saber...

– Isso demora  a aprender, Rosi.

– Eu vi como você faz. Você passa o dedo pelas linhas e vai mexendo os lábios. Já fiz o mesmo e não escuto nada. Explique-me qual é o segredo. Eu aprendo rápido.

O pai revirou os olhos e passeou as mãos sobre as folhas que jaziam na poeira.

– Para ler esses papéis , Rosi, você precisa ficar parada. Completamente parada, os olhos, o corpo, a alma. Fica assim um tempo, como um caçador na emboscada.

Se ficasse imóvel por um tempo, aconteceria o inverso daquilo que ela esperava: as letras é que começariam a olhar para ela. E iriam segredar-lhe histórias. Tudo aquilo parecem desenhos, mas dentro das letras estão vozes. Cada página é uma caixa infinita de vozes. Ao lermos não somos o olho; somos o ouvido. E foi assim que falou Katini Nsambe.

Rosi ajoelhou-se perante os papéis e permaneceu muito parada, à espera que as letras lhe falassem”.

 

Mia Couto

 Mulheres de Cinzas

 As Areias do Imperador 1

*Imagem capturada na Internet.

Sem Título 1

Foto Geraldo Cunha

U sabiá lá fora canta sempri sua preci!

Tão devotu é o gajo qui inveja dixperta,
Naqueli qui tem fé i di milagre careci…
Si atendidu o não, tá lá eli firmi em alerta!

Sabiá, tu qui égi pur Deux u ixcolhidu,
Discípru acundenadu a adorá a natureza!
E nossax trixteza du mundu tenx banidu!
C’um tua canção qui é marca di realeza!

Mi ajuda passarinhu c’um tua caridadi!
A ixquecê, a perdua, a lavá mô coração!
Daquela qui vuô c’ax asa da mardadi…
Mi dexandu sem nada… nessa solidão!

*

O sabiá lá fora canta sempre sua prece!
Tão devoto é o gajo que inveja desperta,
Naquele que tem fé e de milagre carece…
Si atendido ou não tá lá ele firme em alerta!

Sabiá, tu que és por Deus o escolhido,
Discípulo condenado a adorar a natureza!
E nossas tristezas do mundo tens banido!
Com tua canção que é marca de realeza!

Me ajuda passarinho com tua caridade!
A esquecer, a perdoar, a lavar meu coração!
Daquela que voou com as asas da maldade…
Me deixando sem nada… nessa solidão!

Autor: Seo Maneca

Foto: Geraldo Cunha

*escrito no singular idioma falado pelas gentes nativas da Ilha de Santa Catarina.

Para melhor conhecer Geraldo Cunha:

https://seomaneca.wordpress.com

 

Cidade Rendada

“O designer da Polônia, conhecido pelo pseudônimo  NeSpoon  tece rendas na paisagem urbana aplicando-as nas paredes de edifícios com a ajuda de stencils especiais. Acredita que os meandros de certos padrões culturais escondem  códigos reconhecíveis por todos. Além disso, as rendas  embelezam o espaço e criam uma atmosfera positiva”.

http://www.livemaster.ru/topic/1282977-gorod-v-kruzhevah-nezhno-azhurnyj-strit-art-ot-dizajnera-nespoon

Cidade Rendada, uma expressão de generosidade urbana que combina com Florianópolis. Ou não?

Fonte: Perfil  Ярмарка Мастеров do Facebook

O Relógio do Mercado

Relógio com Mercado linda

Neste lindo relógio há uma melodia,
embora singela na madrugada
por testemunha
o ar gelado
a praça
tudo e todos silencia,
em organizadas horas
o tic-tac apaixonado;
ponteiros amam-se.

Cláudia Da silva Tomazi

Para saber mais:

http://obaratodefloripa.com.br/relogio-do-mercado-publico-volta-a-funcionar-voce-sabe-como-ele-veio-da-inglaterra-ate-floripa/

As Ruas

Ribeirão da Ilha

Ribeirão da Ilha

No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:
era a hora do regresso.
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

De Mia Couto,

Tradutor de Chuvas.

do Perfil Mia Couto no Facebbok

Banho de Mané em Dia de Friáj

Diz a Benta: – Ô cumádi! Comé qui tu faj pá tomá banhu cum essa friáj?

Diz a Cota: –  Ô só lavu aj parte, cumádi.

Diz a Benta: – I comé qui tu faj pá lavá aj parte cum essa friáj,  cumádi?

Diz a Cota: – Ô botu u’a chaleira d’ água pá fervê bem morninha, pegu u’a fronha velha bem limpinha e si lavu, cumádi.

Diz a Benta: – Tá. Mai tu tira ai luva?

Diz a Cota: – Porquindáj!

Oração das Árvores

Amiga Árvore

“Tu que passas e levantas contra mim teu braço,

antes de fazer-me mal, olha-me bem.

Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno.

Eu sou a sombra amiga que te protege contra o sol.

Meus frutos saciam tua fome e acalmam tua sede.

Eu sou a viga que suporta o teto da tua casa, a tábua da tua mesa, a cama em que descansas, sou o cabo das tuas ferramentas, a porta da tua casa.

Quando nasces sou madeira para o teu berço.

Quando morres, sou o ataúde que te acompanha ao seio da terra.

Sou pão de bondade e flor de beleza.

Se me amas como mereço, defende-me contra os insensatos”.

(inscrita numa placa na Praça XV de Novembro, em Florianópolis. Autor desconhecido)

O Lançar das Redes

_MG_7070 Pescador 1Foto: Carlos Amorim

“Chega o vento sul e consigo o frio. As ondas já vão altas. É maio. Inicia-se o remendar de redes, canoas saem do rancho e os camaradas se reúnem. Expectativa, a temporada da tainha aproxima-se.

As canoas, castigando as estivas, vão para a beira da praia. Lá, pacientemente, aguardam cumprir seu destino: lançarem-se mar adentro. Em seus cascos, feitos de um pau só, guardam histórias, às vezes centenárias, de um povo destemido e trabalhador.

Em terra, os pescadores entram em acordo. Os com mais experiência e olhos treinados vão para a vigia. Os fortes para os remos. Cada um com sua função.

O dia começa cedo. O frio cortante relembra a todos que o trabalho é árduo. No rancho, os camaradas tomam seu café. Menos o vigia. Este já saiu, está a postos, seu trabalho começa primeiro.

Solitário e concentrado, ele não tira os olhos do mar. Diz-se que não lhe é permitido piscar. Profundo conhecedor das mantas de tainha e seus trejeitos, fica à espreita, em um local estratégico, atento ao menor sinal do peixe. E o peixe, este sim, traiçoeiro e arisco, ri dos olhos leigos de turistas desavisados, dos quais se esconde com facilidade. O vigia, porém, detecta-o. Às vezes, é o vermelhão do cardume, ou o pulo do peixe, ou ainda o arrepio na superfície da água. Nada lhe escapa.

Abrem-se as cortinhas do palco principal e dá-se início ao espetáculo: o peixe foi avistado. O apito do vigia soa, e sua camisa é abanada no ar. É sinal para os companheiros na praia de que a espera acabou. Baralho, dominó, canecas, comida, tudo agora é deixado de lado. A agitação toma conta da praia. São gritos, correria e determinação. ‘Vamos lá rapazes, vamos lá!’, todos mandam e todos obedecem.

A canoa é posta na água, ao mesmo tempo em que embarcam os remeiros, o patrão e o chumbereiro, responsável por jogar o calão de chumbo na água. Tudo é desordenadamente sincronizado, e assim inicia-se o cerco ao cardume.

A informação viaja a velocidade incríveis  e em frações de minutos toda comunidade está reunida na praia, esperançosa. São homens, mulheres, crianças, idosos, todos. A pesca é democrática.

De sua posição privilegiada, o vigia orienta a canoa no caminho que deve seguir, indicando o trajeto do peixe. Fechado o cerco, a canoa retorna para a terra. Tem-se início então o grande marco cultural da atividade: o puxar das redes.

Todos ajudam. O entusiasmo é geral, e o alvoroço cresce, pois o lance é promissor. São inúmeras mãos ajudando, e quem participa recebe tainha.

Redes na praia, tainhas na areia, o momento agora é de distribuição dos quinhões. A divisão é proporcional ao cargo exercido. Vigias, remeiros, donos de rede, patrões de canoa, ajudantes, cada um recebe seu quinhão. Os que podem escolher ficam de olho nas graúdas: ‘ Essa é minha!’. O restante é vendido.

Pronto, a felicidade está instaurada. Logo o cheiro de tainha na brasa se espalhará pelo ar. As redes serão limpas, reorganizadas e postas novamente nas canoas. O vigia continuará lá, a postos, e os companheiros de pesca voltarão ao rancho, à espera do próximo lance. Que Deus os guarde!”

Fotos: Carlos Amorim

Foto: Carlos Amorim

Do livro Nossa Pesca Um Retrato da Pesca da Tainha em Florianópolis editado pela Fundação Cultural de Florianópolis em 2011. Texto de Filipe Rondon Quintaninlha e fotografia de Eduardo Cassol.  Belo livro!

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